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O Brasil tinha uma equipe. Marrocos tinha um time
14 de Junho 2026

Por Inácio Feitosa

O empate em 1 a 1 entre Brasil e Marrocos, na estreia das duas seleções na Copa do Mundo de 2026, revelou uma realidade que o placar, sozinho, não é capaz de mostrar. De um lado, estava o Brasil, único pentacampeão do mundo e dono da camisa mais vitoriosa da história do futebol. Do outro, Marrocos, semifinalista da Copa do Mundo de 2022 e uma das seleções africanas mais organizadas e competitivas da atualidade. O favoritismo era brasileiro. Mas o futebol, como a vida, costuma premiar muito mais do que a tradição. Afinal, a camisa pesa. Mas não corre.

Marrocos abriu o placar em uma jogada construída coletivamente. O Brasil empatou graças à genialidade de Vinícius Júnior. Os gols contaram histórias diferentes. O da seleção africana foi fruto da movimentação, do entendimento e da participação do conjunto. O brasileiro nasceu do talento individual de um dos melhores jogadores do planeta. E foi justamente essa diferença que me levou a uma pergunta que ultrapassa as quatro linhas: afinal, o Brasil tinha um time ou apenas uma equipe?

A diferença parece meramente semântica, mas está longe disso. Patrick Lencioni, autor de Os Cinco Desafios das Equipes, sustenta que o trabalho em equipe é a maior vantagem competitiva de qualquer organização, justamente porque é poderoso e, ao mesmo tempo, raro. A observação vale para empresas, governos, famílias e, evidentemente, para o futebol. Isso não significa diminuir a Seleção Brasileira. Estamos falando do único país pentacampeão do mundo e da camisa mais vencedora da história. Mas tradição, por si só, não ganha partidas. A história do esporte está repleta de equipes formadas por talentos extraordinários que acabaram superadas por adversários mais organizados, mais comprometidos e mais conscientes de seu papel coletivo.

Michael Jordan, considerado por muitos o maior jogador de basquete de todos os tempos, resumiu essa realidade em uma frase que atravessou gerações: "O talento vence jogos, mas o trabalho em equipe e a inteligência vencem campeonatos". Talvez seja por isso que algumas das maiores seleções da história não tenham sido necessariamente as mais brilhantes individualmente, mas aquelas que conseguiram transformar talento em confiança, confiança em espírito coletivo e espírito coletivo em resultados.

Ao longo da vida, aprendi que é relativamente fácil reunir pessoas competentes. Difícil é construir confiança, propósito e sentimento de pertencimento. É relativamente simples montar uma equipe. O verdadeiro desafio é construir um time. Nas empresas, na política e nas instituições acontece exatamente a mesma coisa. Existem organizações repletas de estrelas, mas incapazes de atuar em conjunto. E existem grupos aparentemente mais modestos que conseguem resultados extraordinários porque aprenderam a colocar o "nós" acima do "eu". Carlo Ancelotti conhece bem esse desafio. Transformar uma seleção repleta de talentos extraordinários em uma unidade capaz de pensar, atacar, defender e sofrer junta é uma tarefa que exige tempo, liderança e confiança. Identidade coletiva não se constrói da noite para o dia.

No fim das contas, os gols daquela partida contaram histórias diferentes. O gol de Marrocos teve a assinatura de Marrocos. O gol do Brasil teve a assinatura de Vinícius Júnior. É cedo para julgar uma seleção que ainda está sendo construída. Mas, naquela noite, a diferença entre uma equipe e um time apareceu com clareza. Michael Jordan tinha razão: o talento vence jogos, mas o trabalho em equipe e a inteligência vencem campeonatos. Porque talentos individuais ganham partidas. Mas são os times que fazem história.

*Inácio Feitosa*
Advogado, escritor e professor universitário.

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