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Do gabarito vazado à criação da UPE
05 de Março 2026
Adriano Roberto

Há momentos no jornalismo que definem não apenas uma carreira, mas o destino de uma instituição. Para mim, esse momento aconteceu em um domingo de 1989, nos estúdios e nas ruas pela Rádio Jovem Cap. O que era para ser apenas mais uma cobertura de vestibular transformou-se no estopim de uma revolução educacional em Pernambuco: a queda do CESESP e a subsequente criação da Universidade de Pernambuco (UPE).

O "Gabarito de Ouro" no Sábado à Noite

Tudo começou por um acaso do destino. Na noite de sábado, na casa de minha namorada, o telefone tocou. Do outro lado, uma voz anônima oferecia à irmã dela o gabarito do primeiro dia do vestibular do CESESP. O esquema era profissional: o vendedor garantia as respostas com 10% de erro — uma estratégia sórdida para que ninguém "fechasse" a prova e levantasse suspeitas estatísticas.

Assumi a negociação. Para provar que não era um blefe, a voz descreveu a Questão 8: um mapa do Brasil com colunas onde se lia a palavra "café". Naquele instante, eu não tinha apenas uma pista; eu tinha a prova física do crime.

O Confronto no Derby

No domingo de manhã, antes dos portões abrirem, fui ao encontro do Professor Naldo Halliday, então presidente do certame (CESESP). Apresentei a ele o gabarito. Ele tomou o papel da minha mão e entrou no prédio. Não voltou mais.

O que ele não sabia é que eu guardava uma segunda cópia.

Ao lado do Professor Silvio Costa (do Colégio Decisão), que acompanhava e patrocinava nossa cobertura, percebi que o sistema tentaria abafar o caso. Às 8h50, quando o tema da redação deveria ser divulgado e o silêncio oficial imperou, tive a certeza: o gabarito era real.

O Xeque-Mate no Ar

Abri o microfone da Jovem Cap antes do início da prova. Comecei a ler as respostas, uma a uma. Enquanto milhares de estudantes entravam nas salas, a verdade saía pelas ondas do rádio. O vestibular estava morto antes mesmo de começar.

Ao meio-dia, o desfecho foi cinematográfico. Halliday apareceu diante de uma massa de repórteres sedentos por explicações. Sem documentos, sem gabaritos oficiais, limitou-se a dizer: "Está anulado". Virou as costas e saiu.

O Preço da Verdade e o Legado

A repercussão foi imediata e passei de entrevistador a entrevistado, por todas as emissoras de rádio e TV e jornais que faziam a cobertura. Passei dias em um refúgio na praia de Tamandaré sob ameaças de morte. O esquema que denunciei envolvia gente poderosa, mas a flecha já tinha sido lançada. 

O Governo Miguel Arraes entendeu que o modelo das fundações isoladas (CESESP/FESP) estava moralmente falido. Em 1990, como resposta direta a essa crise de credibilidade, nascia a UPE, com processos de segurança muito mais rígidos.

Fui depor na Polícia Federal, mas saí de lá com a consciência limpa e a carreira impulsionada. Aquele furo na Jovem Cap me abriu portas na Rádio Cidade, Transamérica, Rádio Globo e CBN.

Hoje, ao olhar para a UPE consolidada, lembro-me daquela Questão 8 e da palavra "café". Ali, o jornalismo cumpriu sua missão mais nobre: garantir que o mérito valesse mais do que o dinheiro.

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